sábado, 17 de julho de 2010

Diferente





Na contemporaneidade dos nossos tempos, afinal ser contemporâneo é pensar sobre o hoje tendo os conhecimentos do ontem e a visão para alcançar o amanhã. Porque será que ainda ligamos tanto e conectamos sem conhecer raças? Nos centramos no dinheiro?


Ela olhou para os olhos negros daquela criança, e esta meigamente mirou-a como se pedindo algo de si. Temeu e repudiou a mesma, era apenas uma pequena menina de 3 anos que insistira em invadir a sua casa. Como negar um simples sorriso? Ou o abrir duma porta, um abraço e compreensão. Sei que é nova, e ainda não tem bem consciência do que faz mas temo pelo que a espera.
Revê-se. A sua inquietude, hiperactividade e curiosidade.

Num flashback é levada subitamente ao primeiro dia de escola. Era nova, todas estas caras brancas e pálidas e maneira como eles falavam. Daí limitar-se a ficar calada e assimilar. Tinha 5, naquelas brincadeiras típicas de criança as escolhas do recreio nunca recairiam sobre a criança diferente.
Diferença nunca foi algo aceitável, sempre algo que se lutou por aceitar.

Agora tem 19, terminou o ensino secundário, primeiro ano da faculdade e procura trabalho pela primeira vez tentando demonstrar aos seus pais a sua independência não só mental como financeira. Procura incansavelmente um modelo naqueles que são os seus gostos. Na música, nas revistas, na televisão. Os que mais se destacam apesar de serem similares a si não são ela. Quando procura trabalho não é chamada, e se tal acontece? A pessoa que fica com o cargo é diferente. Recusa-se a culpar o mundo pelas suas falhas e impõe em si uma coragem e determinação.

Hoje, aos 21 continuava a mirar a tal criancinha temendo que esta ainda, no século XXI viesse a ser excluída, maltratada, apontada e principalmente descriminada. Não era sua família, nem amiga ou coisa parecida, mas dividiam o mesmo tom de pele. O tal que se encontrava carregado de percepções e ideias pré-concebidas de quem por ignorância pura, maledicência ou medo transmitia não só em acções mas como em palavras, a ideia de que esta e outras tantas meninas iguais a ela nunca serão suficientemente boas. Nunca serão tão bonitas quanto outra qualquer. Nem merecedoras de certos tipos de relacionamentos, ou posicionamento.

A palavra diferente no seu dicionário tinha duplo significado. Força e frustração. Amor e ódio. Beleza e Feiura. Segurança e Medo.
Depende da mesma em que prisma quereria ficar, traçando a linha ou mudando-a para uma circunferência determinaria o que se lhe avizinha.
Esta pequena menina ainda não passou por metade, talvez não passará e conhecerá, nem dividirão a mesma história. Porque tu hoje poderás fazer com que pra ela o amanhã seja diferente, tal como avós, fizeram com a tua mãe e assim sucessivamente.

P.S- Ainda não mergulhei fundo na diferença nem penetrei até aos confins da minha dor sobre tal assunto, talvez por vergonha, falta de preparação ou simples preguiça mas irá chegar o dia em que o ponto da diferença será apenas um adjectivo positivo e sem duplo significado